Para Tiago do Vale, a cerâmica raramente é uma decisão decorativa. É, antes, um material de memória, que ajuda a ligar um projeto contemporâneo ao lugar onde nasce. No atelier que fundou em 2012, depois de um percurso que passou pela Universidade de Coimbra e por outras experiências profissionais, essa ideia atravessa o trabalho de forma consistente: o material entra no projeto porque ajuda a construir continuidade entre um lugar, a sua história e a vida que ali se vai desenrolar.
Com a Aleluia Ceramics, essa relação já se manifestou em obras de escalas e geografias muito diferentes, de Braga, onde o azul do Alojamento de São Sebastião marca a fachada de uma das ruas mais antigas da cidade, a Aveiro e Ponte de Lima. Foi sobre esse percurso, acerca do projeto que escolhe como o mais significativo da colaboração com a Aleluia Ceramics e o papel da cerâmica na arquitetura contemporânea que conversámos.
Uma relação que começa numa capela
A primeira prescrição de produtos Aleluia por parte do atelier de Tiago do Vale remonta a 2018, numa capela cuja construção deverá arrancar em breve.
“Queríamos estabelecer uma relação cultural com a tradição portuguesa do azulejo em arquitetura religiosa, conservando alguma memória da peça feita à mão, da irregularidade, da vibração da luz sobre o vidrado”, explica o arquiteto.
Essa procura por memória tornou-se um fio condutor. “A cerâmica é um material muito enraizado na cultura construtiva portuguesa. Não é apenas um revestimento, é uma forma de proteger, de dar escala, de refletir luz, de construir cor, de introduzir textura e de estabelecer uma relação muito direta entre arquitetura e cidade.”
No caso da Aleluia Ceramics, a valorização está no equilíbrio entre acessibilidade, consistência técnica e expressividade, algo que reconhece de forma particular na série Urban Atelier. A coleção aproxima-se visualmente do azulejo artesanal, mas mantém o custo e a previsibilidade que uma obra contemporânea exige.
Braga, Aveiro, Ponte de Lima: três projetos, uma mesma atenção ao lugar
“São programas distintos e geografias diferentes, mas todos têm em comum uma preocupação com a relação entre a obra e o lugar”, diz.
Em Braga, o trabalho decorreu numa rua de forte carga histórica ligada à matriz romana da cidade e é aí que o azul da fachada do Alojamento de São Sebastião ganha o seu peso simbólico, quase como um sinal na paisagem urbana. No mesmo edifício, para além da fachada, também a caixa de escadas é integralmente revestida a Urban Atelier.
Em Aveiro, a Casa de Sá entra em diálogo direto com o legado da Arte Nova. Em Ponte de Lima, o Hotel da Casa das Cerdeiras revisita o imaginário de uma casa minhota feita de sucessivos ciclos de construção e reconstrução.
Para Tiago do Vale, o que une estes três projetos, para lá da cerâmica, é uma ideia de adequação.
“Não parto da cerâmica como imagem, nem de qualquer material como imagem. O material tem de pertencer ao problema”, afirma. “Uso a cerâmica como um material de pertença. Não para criar uma nostalgia literal, nem para imitar o passado, mas para permitir que o projeto contemporâneo reconheça a cultura material que o antecede.”
O projeto preferido: a cozinha das Cerdeiras
Questionado sobre qual destes projetos mais gostou de desenvolver, Tiago do Vale escolhe sem hesitar o Hotel da Casa das Cerdeiras, embora explique que a razão não está no protagonismo visual da cerâmica.
“Aí ela participa de uma forma muito interessante na construção de uma atmosfera”, diz.
A cozinha do hotel é um espaço contemporâneo que convoca, ainda assim, o imaginário de cozinhas antigas, mercearias e casas rurais onde o azulejo tinha presença forte.
“Não se trata de reconstruir literalmente uma cozinha do passado, nem de fazer uma cenografia nostálgica. Trata-se de trabalhar com sinais materiais que pertencem à nossa memória coletiva: a escala da peça cerâmica, o brilho do vidrado, a métrica das juntas, a facilidade de limpeza, a robustez, a relação com a água, com a luz e com o uso quotidiano.”
A escolha recaiu de novo sobre a série Urban Atelier, pela sua capacidade de operar na zona intermédia entre o industrial e o artesanal.
“Tem uma produção industrial, portanto permite controlo dimensional, disponibilidade, custo comportável e previsibilidade em obra, mas tem uma aparência que nos remete para o azulejo manual.”
Essa ligeira vibração da superfície impede que a cerâmica pareça demasiado neutra. Numa cozinha, as exigências práticas são evidentes (resistência, higiene, manutenção, durabilidade), mas o desafio, explica o arquiteto Tiago do Vale, era desenhar um espaço que não parecesse técnico e genérico, nem uma reprodução historicista.
“A cerâmica permitiu-nos construir esse equilíbrio: um espaço funcional e contemporâneo, mas com uma memória reconhecível.”
O resultado tem uma densidade quase afetiva, uma forma de remeter para um passado comum em que os materiais eram escolhidos porque funcionavam, na sua simplicidade.
Adequação antes de tudo
Sobre os critérios que orientam a escolha de um material, Tiago do Vale recusa hierarquias fixas.
“O formato e a textura são decisivos porque definem a escala. A cor é decisiva porque altera a atmosfera e a leitura do espaço. A manutenção é decisiva porque a arquitetura é contínua no tempo, no uso diário, na limpeza, no desgaste, na reparação. Um bom material é aquele que consegue responder a muitos problemas ao mesmo tempo.”
Também não vê oposição entre técnica e criatividade. “A arquitetura trabalha sempre com constrangimentos: orçamento, regulamentos, estrutura, acessibilidade, mão-de-obra, prazos, manutenção. Esses constrangimentos podem parecer limitações, mas são também geradores de projeto.”
E quando questionado se um espaço começa pelo desenho ou pelo material, responde que ambos vêm depois de um primeiro passo mais essencial, a compreensão do lugar, do programa, do cliente, da história e das expectativas em jogo. Só então o desenho começa a testar hipóteses, ora a partir de um material, ora conduzindo até ele.
O papel dos materiais numa arquitetura que se esgota depressa
Para Tiago do Vale, os materiais ganham hoje ainda mais importância porque vivemos num contexto em que a arquitetura é frequentemente reduzida ao mínimo.
“Há um impulso reativo de provocar outro tipo de experiência, e os materiais têm o potencial de devolver à arquitetura corpo, peso, temperatura, som, cheiro, textura, envelhecimento.”
No Hotel da Casa das Cerdeiras, essa materialidade é quase a estrutura narrativa da obra: granito, xisto, madeira, mosaico hidráulico, mármore e cerâmica ajudam a tornar legíveis os diferentes tempos da casa, entre elementos recuperados, reconstruídos e reinterpretados.
A cerâmica tem, na sua leitura, uma qualidade particular por trabalhar em simultâneo com módulo, superfície, brilho, cor e textura.
“Pode dar uma escala muito precisa a uma parede ou a um pavimento. Pode intensificar a luz ou torná-la mais suave. Pode introduzir cor de uma forma muito profunda, porque a cor vidrada não é igual à cor pintada.”
E em Portugal, sublinha Tiago do Vale, a cerâmica carrega ainda uma memória coletiva presente em fachadas, cozinhas, igrejas e estações.
“Quando a usamos bem, não estamos apenas a revestir uma superfície: estamos a ativar uma cultura material.”
Entre a imagem e a vivência
Questionado sobre se hoje se projeta mais para a imagem do que para a vivência, Tiago do Vale reconhece a pressão que a circulação rápida de fotografias e renders exerce sobre o desenho. Mas recusa que a arquitetura se esgote aí.
“A prova real de um edifício é a vida que ele permite, a forma como envelhece, como é apropriado, como responde ao quotidiano e às mudanças e como sobrevive à passagem do tempo.”
Nas tendências que observa, identifica uma tensão entre uma arquitetura globalizada, dependente de referências que circulam sem atrito entre geografias, e um regresso forte à reabilitação, aos materiais locais e à escala humana, sendo esta segunda direção que lhe interessa mais.
Quanto ao caminho da cerâmica nos próximos anos, Tiago do Vale aposta na continuidade daquilo que já a torna forte (durabilidade, manutenção fácil, resistência, cor, textura, relação com a luz), mas com maior consciência ambiental e processos produtivos mais eficientes.
“Interessa-me particularmente esse caminho entre indústria e artesanato: produtos acessíveis e tecnicamente consistentes, mas capazes de recuperar de novas formas a profundidade e a humanidade da peça manual.”
Um cliente mais exposto, nem sempre mais esclarecido
Sobre a relação com quem encomenda os projetos, Tiago do Vale nota que o cliente atual está certamente mais exposto a imagens, produtos e referências internacionais, o que torna a conversa mais rica. Mas faz uma distinção importante.
“Informação não é necessariamente compreensão. Uma imagem pode ser sedutora, mas completamente inadequada a um lugar, a um orçamento, a um modo de vida ou a um sistema construtivo.”
A resposta do atelier passa por tratar essas referências como ponto de partida para a conversa, nunca como instrução final, procurando a motivação por trás da imagem para a traduzir numa solução arquitetónica adequada.
Um percurso feito projeto a projeto
Antes da arquitetura, houve o desenho automóvel como referência de adolescência, uma síntese entre expressão formal e precisão técnica que voltaria a encontrar, mais tarde, na própria arquitetura.
Depois de Coimbra e de colaborações ainda em estudante, o atelier nasceu em 2012, e o Chalé das Três Esquinas tornou-se um momento importante, tanto por ter acolhido o próprio atelier como por condensar temas que continuam presentes no trabalho: reabilitação, memória, construção, domesticidade, luz.
Tiago do Vale procura não falar de influências fechadas, embora nomeie Fernando Távora, pela forma honesta e descomplexada como trabalhou com a história, Álvaro Siza, pela relação entre luz, volume e espaço, e João Mendes Ribeiro, pela precisão quase artesanal do desenho.
Também resiste a pensar a arquitetura a partir de estilos, preferindo uma atitude de continuidade crítica que vai buscar tanto ao Movimento Moderno como à arquitetura popular, sempre com uma atenção real ao lugar e às suas soluções construtivas.
A inspiração, diz, pode estar em quase tudo, desde que observado com atenção, de uma pedra erodida a uma peça de relojoaria.
E se há um desafio que marcou a sua forma de projetar, é a resistência à certeza: “a primeira ideia raramente é suficiente. Aprendi a valorizar a dúvida, a revisão, a capacidade de abandonar soluções quando o projeto o exige.”
Dois princípios que resumem a conversa
Perguntado sobre um princípio essencial na arquitetura, Tiago do Vale resume como “compreender antes de desenhar”.
E sobre o erro mais comum, aponta na direção oposta: “começar pela imagem ou pela vontade de fazer diferente. Se o projeto responder com precisão ao lugar, ao programa, às pessoas e ao tempo em que se constrói, acabará por encontrar a sua própria identidade.”
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